Classificação: A
Ano de lançamento: 2021
Melhor música: DÉJÀ VU
Resenha:
Marisa Monte costuma demorar para abrir a porta. Mas, quando abre, ninguém reclama da espera. Nesse sentido, a escolha do nome Portas para batizar o disco que a diva lançou em 2021 foi bem apropriada.
Foram nada menos que dez anos desde o último álbum de inéditas, que foi cornetado por aqui. Nesse meio tempo, Marisa reuniu mais uma vez os Tribalistas e deixou algumas migalhas aos súditos, como a coletânea de raridades Coleção.
Com a expectativa alta de sempre, o reaparecimento de Marisa fez a alegria tanto de quem só a conhece pelas novelas e pelo rádio como dos obcecados pelo fenômeno pop-mpbístico brasileiro como eu.
Em outras palavras, a porta não deu para um cômodo vazio.
Marisa encontrou a combinação certa em um período que coincidiu com a primeira reabertura após a pandemia. Vai me dizer que Calma não tem a vibe perfeita para quem ficou meses trancado em casa?
Como de hábito, o disco traz canções com apelo popular e aquela sofisticaçãozinha blasé que faz Marisa ser admirada por petistas e bolsonaristas gregos e troianos.
Como também de hábito, a cantora assina quase todas as músicas. Mas desta vez ela deixou a “porta” mais aberta para novas parcerias. Quem se aproveitou da brecha para entrar e ficar à vontade foi Chico Brown.
O filho de Carlinhos Brown e neto de Chico Buarque assina cinco canções, incluindo Déjà Vu, e ajuda a renovar discretamente a paleta sonora de Marisa sem romper com sua identidade.
Outro coadjuvante de destaque é o “losermano” Marcelo Camelo, que compõe duas faixas e participa de várias outras.
Por falar em Déjà Vu, talvez o grande defeito de Portas seja essa sensação de que você já ouviu essas canções antes. Essa sensação se intensifica principalmente ali pelo meio das 16 faixas -- 18 na versão do Spotify! São portas demais, algumas dando em lugares parecidos demais...
Mas será mesmo que Marisa precisa inovar? Claro que não! Portas não muda a trajetória de Marisa Monte. Mas confirma que poucas artistas brasileiras conseguem fazer mais do mesmo com tanto bom gosto. O problema nunca foi o que está atrás da porta, mas a demora em abrir para ventilar esse corredor...
Faixas:
- Portas (Marisa Monte / Arnaldo Antunes / Dadi)
- Calma (Marisa Monte / Chico Brown)
- Déjà Vu (Marisa Monte / Chico Brown)
- Quanto Tempo (Marisa Monte / Pretinho da Serrinha / Pedro Baby)
- Medo do Perigo (Marisa Monte / Chico Brown)
- A Língua dos Animais (Marisa Monte / Arnaldo Antunes / Dadi)
- Praia Vermelha (Marisa Monte / Nando Reis)
- Totalmente Seu (Marisa Monte / Lucas Silva / Lucio Silva)
- Em Qualquer Tom (Marisa Monte / Chico Brown)
- Espaçonaves (Marcelo Camelo)
- Fazendo Cena (Marisa Monte / Chico Brown)
- Sal (Marisa Monte / Marcelo Camelo)
- Vagalumes (Marisa Monte / Arnaldo Antunes)
- Vento Sardo (Marisa Monte / Jorge Drexler)
- Elegante Amanhecer (Marisa Monte / Pretinho da Serrinha)
- Você Não Liga (Marisa Monte / Marcelo Camelo)
- Pra Melhorar (Marisa Monte / Seu Jorge / Flor)
- Feliz, Alegre e Forte (Marisa Monte / Pretinho da Serrinha / Rachell Luz)
Faixa a faixa:
Portas: Prepara bem o clima do disco e nos convida a entrar e ficar à vontade. Estava mesmo na hora de começar a abrir as portas. Nota 8
Calma: Nada como lançar a música certa no momento certo. Sem "palestrinha", tornou-se uma espécie de hino da reabertura pós-pandemia (ao menos para mim). Nota 9
Déjà Vu: Aqui temos Marisa em plenos poderes. A canção é uma força da natureza, com a letra simples amplificada pelo arranjo orquestral, a cargo do brilhante Arthur Verocai. Nota 9
Quanto Tempo: A sensação de déjà vu continua, mas desta vez porque a canção é bem semelhante a pelo menos uma dezena de Marisa. Nota 8
Medo do Perigo: Essa podia entrar num disco dos Tribalistas. Há quem odeie esse tipo de letra cheia de trocadilhos sonoros, mas eu não tenho medo de dizer que é uma das minhas favoritas. Nota 9
A Língua dos Animais: Uma das mais alto astral do disco, explora bem o alcance vocal quase sobrenatural de Marisa, e tem um arranjo que remete a uma fanfarra animalesca. Nota 8
Praia Vermelha: A retomada da parceria (musical) com Nando Reis foi uma das melhores notícias para os fãs de Marisa. A canção não chega ao nível dos clássicos dos anos 1990, mas flui como uma onda sonora. Nota 8
Totalmente Seu: Totalmente esquecível, mas é delicada e se encaixa na proposta do disco. Nota 6
Em Qualquer Tom: Um agradável samba-canção. Não chega a brilhar, mas fica mais na memória que a porta faixa anterior. Nota 7
Espaçonaves: A composição de Marcelo Camelo não compromete, mas também não acrescenta muito ao disco. Nota 6
Fazendo Cena: Canção bonita, mas que demora a fixar no meio de tantas portas, quer dizer, faixas. Nota 7
Sal: A melhor das contribuições de Camelo para o disco de Marisa. Nota 8
Vagalumes: Uma espécie de "fado concretista". Não por acaso, tem a assinatura de Arnaldo Antunes. Nota 8
Vento Sardo: A parceria com Jorge Drexler é uma das mais classudas do disco, daquelas para ouvir tomando uma taça de champanhe curtindo um pôr do sol à beira-mar. Nota 9
Elegante Amanhecer: Uma dúvida sincera: por que os artistas famosos só fazem sambas em homenagem à Portela (como nesta canção) ou à Mangueira? Algo contra a Beija Flor ou, vá lá, Caprichosos de Pilares? Nota 6
Você Não Liga: Eu não ligo porque já ouvi essa canção antes, Marisa. Poderia entrar facilmente em Memórias, Crônicas e Declarações de Amor. Nota 6
Pra Melhorar: Juro que não é para polemizar, mas essa música amada por todos não me desce. Nota 6
Feliz, Alegre e Forte: Entrou na edição expandida e virou um sucesso "radiofônico", mas para mim é mais uma canção tribalista genérica. Nota 7

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