Resenha: Tropicália (1968) - Vingadores - Era de Caetano

 Capa do disco Tropicalia, estendida usando inteligência artificial

Classificação: AAA

Ano de lançamento: 1968

Melhor música: PARQUE INDUSTRIAL (mas todas são ótimas)

Resenha:

Um grupo de artistas se reúne com a missão de fazer uma revolução cultural e defender a música brasileira da caretice dos anos de chumbo e absorver a influência “alienígena”. Podia ser a sinopse de um filme da Marvel, mas estamos falando do disco Tropicalia ou Panis et Circencis.


O líder dos nossos Vingadores musicais é Caetano Veloso. O homem de ferro baiano estabeleceu as bases da Tropicália no álbum que lançou no começo de 1968. Ao se dar conta de que uma andorinha só não faria o carnaval, reuniu artistas com diferentes poderes:

 

  • Gilberto Gil, o deus baiano, capaz de transcender corações e mentes com sua poesia moderna e melodias rasgadas;

  • Gal Costa, a Viúva Negra da voz, e Nara Leão, a Gaviã Arqueira (com força limitada, porém marcante);

  • Os Mutantes, cujo nome já remete o mundo dos quadrinhos e dos heróis, formados pelos “irmãos superpoderosos” Arnaldo Baptista e Sérgio Dias e pela estrela Rita Lee;

  • Tom Zé, o miúdo baiano com uma verve poética e desconstrutiva que lhe dá poderes de Incrível Hulk;

  • Os heróis “sem capa”: os letristas Torquato Neto e Capinan e o maestro Rogério Duprat.


A união dos artistas e a gravidade do momento histórico conferem uma urgência ainda maior ao movimento. Mas sinto que muitas vezes essas questões muitas vezes são colocadas à frente do próprio valor musical da obra. Esta página está aqui justamente para corrigir esse descompasso.


Tropicalia ou Panis et Circencis é um verdadeiro blockbuster sonoro. Ao remodelar a tradição, absorver as transformações vindas de fora e traduzir em poesia toda a cacofonia do momento, Caetano e cia levam a música brasileira ao clímax de uma nova fase que teve início, creio eu, no Festival de 1967. 


Para não dizer que sou apenas elogios, o fato de o disco ser conscientemente pretensioso rouba um pouco da espontaneidade que é sempre tão bem-vinda à música. E, para alguns, pode soar um tanto blasé — para não dizer pedante.


Mas não se deixe levar pelos críticos! Tropicalia ou Panis et Circencis é um espetáculo. E, com todos os méritos, ajudou a consolidar o que eu chamo de MCU: Musical Caetanic Universe.


Faixa a faixa:


  1. Miserere Nobis (José Carlos Capinan / Gilberto Gil): Mais do que uma canção, um manifesto para abrir o disco com um chute bem dado na porta — garantindo que ela jamais volte a se fechar. Nota 10

  2. Coração Materno (Vicente Celestino): Muito antes de Faroeste Caboclo e Renato Russo, havia Vicente Celestino, com essa canção dramática que Caetano ressignifica em Tropicalia. Nota 10 

  3. Panis et Circences (Caetano Veloso / Gilberto Gil): Ninguém melhor do que Os Mutantes para cantar uma canção iluminada de sol e chacoalhar as pessoas na sala de jantar. Nota 10

  4. Lindonéia (Caetano Veloso / Gilberto Gil): Eu fecho os olhos e vejo a própria Nara Leão como a Lindonéia, essa personagem inspirada no quadro de Rubens Gerchman. Nota 10

  5. Parque Industrial (Tom Zé): Aprendi a não chamar qualquer coisa de genial, mas fica difícil não se render a esta obra-prima de Tom Zé, recitada em jogral pelos Vingadores Tropicalistas. Nota 10

  6. Geleia Geral (Gilberto Gil / Torquato Neto): Combinação perfeita da canção de Gil com a letra esplêndida de Torquato Neto, daquelas que revelam novas nuances a cada audição. Nota 10

  7. Baby (Caetano Veloso): Baby, eu amo essa música! Você precisa conhecer Gal Costa, ouvir aquela canção do Caetano… Nota 10

  8. Três Caravelas (Las Tres Carabelas) (Algueró Jr. / Moreau. Versão: João de Barro): Marchinha carnavalesca em espanhol, nesta (frustrada, porém divertida) missão tropicalista de nos integrar à América Latina. Nota 8

  9. Enquanto seu Lobo Não Vem (Caetano Veloso): Uma das canções que melhor capturam o espírito da época. Lembre-se, estamos em 1968, ano de protestos e às vésperas da decretação do AI-5. Nota 9

  10. Mamãe, Coragem (Caetano Veloso / Torquato Neto): Mais um momento de puro lirismo, elevado à máxima potência na voz de Gal. Nota 9

  11. Bat Macumba (Caetano Veloso / Gilberto Gil): Uma aula de como fazer uma farra musical a partir de um poema concreto. Mas a versão do álbum d’Os Mutantes é ainda melhor. Nota 9

  12. Hino ao Senhor do Bonfim (Artur de Sales / João Antônio Wanderley): Unindo a tradição à fanfarra tropicalista, fecha o disco com louvor — em todos os sentidos. Nota 9

Assista a Os Mutantes cantando Panis et Circenses:



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